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Diversidade Cultural e Fracasso Escolar

Azoilda Loretto da Trindade
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"Aos povos de ontem e hoje, que alguns tentam confinar às senzalas".

O embate, conflito, encontro, diálogo que emerge do contato entre diferentes grupos sociais, étnicos, de gênero, deficientes... no contexto escolar tem suscitado, não é de hoje, reflexões e estudos. No entanto, todas essas iniciativas são certamente marcada pela visão de mundo e lugar social de quem as formula e, também, influenciadas pelo momento histórico vivido.

Neste processo, os grupos que não atendem as expectativas valorizadas pela Escola tendem a ser culpabilizados pela não correspondência aos ideais escolares e assim geram explicações/justifificativas, "discursos competentes", a respeito dessa incompatibilidade: privação ou déficit cultural, psicológico, social, carência alimentar, carências generalizadas; questões de classe, etc.... Hoje, convivem com essas explicações, as questões relacionadas à Diversidade Cultural, que tanto assumem características mais progressistas como conservadoras, ou mescladas.

A Cultura em Foco

As questões culturais têm suscitado muitos debates, criação de centros de pesquisa e estudo, muito rebuliço ultimamente. Isso se dá pelo questionamento da hegemonia do Mundo e Cultural Ocidental, pela insurgência dos movimentos das Diferenças que reivindicam e lutam por visibilidade, audibilidade, por espaço político, por seu "lugar ao Sol". Entram em confronto com a visão euronorte americana do mundo, que privilegia o homem ocidentalizado, que comunga dos preceitos da "democracia" e liberalismo, que exclui ou hierarquiza valorativamente grupos diferentes dos seus membros hegemônicos.

Como conseqüência desses movimentos são criadas novas demandas sociais, políticas, que envolvam o conhecimento, manipulação, potencialização, massificação e uma série de ações que focalizam a Diversidade Cultural e a diversidade humana.

Fracasso Escolar

Conforme já foi dito anteriormente, o modo de conceber o significado do fracasso escolar está intimamente ligado a concepção de vida e de vida escolar de quem se propõe a analisá-la/entendê-lo. A nossa concepção segue o caminho que desnaturaliza o fracasso escolar, vendo-o como uma produção a serviço da exclusão e injustiças sociais e muito, muito raramente, como responsabilidade, culpa do usuário mais imediato da escola.

A escola, a despeito de tantos estudos, pesquisas, críticas, ainda é uma instituição do Mundo Ocidental, baseada em suas idéias de "individualismo, liberalismo, constitucionalismo, direitos humanos, igualdade, liberdade, governo pela lei, democracia, livre mercado, separação de Igreja e Estado" além da competitividade, do Capitalismo etc. ... Idéias estas que esse mundo tenta "universalizar" através, por exemplo, da escola.

Se tornarmos alguns valores do mundo Ocidental, como a meritocracia, a competitividade, o individualismo, a exclusão, a seletividade podemos inferir que a produtividade da escola reside justamente na sua improdutividade (como talvez diria Gaudêncio Frigotto). A produtividade da escola reside em produzir fracasso escolar, já que o "sucesso" escolar não é para todos.

Se tomarmos, porém, valores como direitos humanos, igualdade, democracia, diríamos que a escola, por não tratar ou saber tratar seus usuários com eqüidade, fracassa nos seus objetivos.

De um jeito ou de outro, o fracasso escolar não é intrínseco aos seus usuários (discentes), mas diz respeito às relações sociais tanto de ordem micropolítica quanto macropolítica. Ou seja, diz respeito a como a comunidade escolar se constitui e se relaciona entre si, com a sociedade mais ampla e com o Estado. Diz respeito às relações de poder entre grupos sociais. Se relações de poder, produção sócio-histórica não são dadas, não é natural, é construção.

Diversidade Cultural e Educação

Para nós, o que está em discussão agora não é a escola como produtora de fracasso escolar ou como fracassada em promover uma educação igualitária para todos sem distinção de raça/cor, etnia, gênero, orientação sexual, classe social, deficiência, ou qualquer diferença que seu usuário apresente.

O que está em jogo, para nós, é a construção de uma educação, de uma pedagogia que contemple a diversidade humana, com cultura, modos de ser, sentir e agir diferenciados. Uma educação, uma pedagogia, uma escola visceralmente comprometida com a Vida, com o prazer, com a felicidade, com o respeito às diferenças, com a transformação, com a alteridade.

O que está em jogo é uma educação que rompa com a clássica história do "Patinho Feio" (para dizer de forma mais leve), com o perverso processo de transformação de cisnes em patinhos feios. Uma que seja capaz de, não só com a razão mas com o coração, com todos os sentido e todo o corpo, permitir a existência e promover patos, cisnes, gansos, galos, galinhas,... e que esses se conheçam, se respeitem, se preservem, dialoguem, se mesclem, se hibridizem, sem, contudo, deixarem de ser eles mesmos.

 

 

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