Mulheres Negras - do umbigo para o mundo
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Terra Negra

África-mulher princípio-ninho.
Mátria-África matriz transformadora.
Telúricas poeiras e montanhas se fundem.
Criadoras e Criaturas se confundem.
Terra, planeta de seios fartos, que a todos alimenta.
Terra, trilha chã, que produz, trilha fêmea, sã que conduz.
Terra-chão, terreiro, segurança e firmeza...
meu caminhar primeiro.
Terra ora, cultura gera, ora cultiva hera.
Mulher, terra, existência que se perpetua.
Tás, oyás euás, negras terras, mulheres negras...
Resistência que se cultua!

Neuza Pereira

No dia 08 de maio, Neusa das Dores Pereira foi homenageada com a moção “Negras Guerreiras”, oferecida pela Câmara de Vereadores, uma iniciativa do Gabinete da Vereadora Jurema Batista. O título tem o objetivo de estimular mulheres que, como Neusa, têm dedicado grande parte de suas vidas à luta pela emancipação das mulheres negras do Estado do Rio de Janeiro.

Mulheres Negras: do umbigo para o mundo teve uma interessante conversa com Neusa e disponibiliza aqui como forma de inaugurarmos mais um espaço de socialização onde o mais importante será nos conhecermos melhor. Sintam-se à vontade para participar, ele está aberto a [email protected] [email protected] que têm contribuído para o fortalecimento da comunidade negra. Esperamos encontrá[email protected] aqui logo, logo!

MN - Nossa primeira curiosidade é saber o que a faz entrar tão abstinadamente na luta pela valorização da comunidade negra, mais especificamente das mulheres negras?

Neusa - Engraçado, eu me tenho feito muito essa pergunta ultimamente. Hoje, eu acho que a presença da minha mãe está muito forte nessa história. Minha mãe tinha uma preocupação muito grande, embora semi-analfabeta, com a comunidade onde ela estava inserida. Eu morava num subúrbio do RJ. Ela era uma das "Donas" do morro. Na comunidade negra, esse título tem um significado muito próprio. Ser uma Dona/Tia é muito importante dentro da comunidade, isso as diferenciam de uma mulher qualquer. Embora jovem, ela era extremamente respeitada na comunidade. Na minha casa, ficavam mulheres que os maridos brigavam, espancavam, botavam para fora de casa; ela recolhia essas mulheres, as crianças. Minha mãe não tinha homem, a única arma que ela usava era a palavra, era um poder de liderança muito grande porque ela não contava com religião. Eu tenho certeza que começa ali minha história e essa preocupação com as mulheres.
Eu penso muito na recriação das ialodês que, na África, constituíam um poder. Eu acho que essas mulheres, essas Donas, essas Tias são um tipo de recriação das ialodês aqui no Brasil.
Mais tarde, entro para o Ginásio e me lembro muito de uma aula de História dada por uma professora. Era o Colégio Paulo de Frontin e para ser admitida como aluna tínhamos que nos submeter a um concurso muito duro. Na escola inteira éramos duas ou três negras, percebíamos que não éramos bem vindas naquele espaço. Era um colégio tradicional na Tijuca, só de moças de classe média, classe média alta. Nessa aula, a professora estava dando uma aula que falava sobre as origens da população brasileira. Ela dizia que os negros brasileiros descendiam de dois tipos básicos de negros: os bantos e os sudaneses. Segundo ela, os sudaneses eram uma maravilha, tinham ido para Bahia, para o Maranhão, eram adiantados, bonitos, altos etc... Os bantos, ao contrário, eram uns coitados, estúpidos, feios, era uma raça feia, boçal, baixa, atarracada, não servia par absolutamente nada. Ela dizia que para o Rio de Janeiro, Espírito Santo veio essa turba, ela chamava de turba! E explicava que era por isso que aqui só tinha negro ladrão, vagabundo etc... Nunca me esqueço dessa aula porque ela falava olhando o tempo inteiro para mim! Eu me perguntava "O que eu tenho com isso? Eu não sou isso." Eu não me reconhecia naquela fala. Eu sentia que ela estava me atacando, mas com 11, 12 anos eu não entendia o porquê dela está me atacando. Eu ali já estava me sentindo negra e fora de alguns esquemas por ser negra. E dali começa algum tipo de consciência. Na verdade, foi essa professora que começa com isso.

MN - E como se dá a sua incursão no movimento de mulheres negras?

Neusa -
Primeiro participo do movimento estudantil. Mais tarde, eu vou para o movimento sindical e bem mais tarde para o SEPE (Sindicato Estadual de Profissionais de Ensino). Antes disso, tentei o Movimento Negro, mas ele não me agradou, achei que era uma coisa muito elitizada, não era o que estava buscando na época. Me encontro melhor, em 1979, no movimento sindical. Como professora, as coisas aí começam a se misturar. Vêm as questões de mulher, de negra, de professora, de trabalhadora. Montamos alguns grupos de trabalho. Coincide também com um projeto que a Prefeitura lança chamado Zumbi, que colocava uma série de discussões de negritude para dentro das escolas. Junto com isso, criamos um grupo de reflexão constituído por mulheres. Há a necessidade que as professoras entendam a questão de gênero. O machismo da escola é terrível porque as professoras são muito machistas. São também racistas mesmo que sejam negras.
Fundamos em Jacarepaguá o primeiro grupo de mulheres negras. Eu digo nós, porque é um grupo de mulheres bastante interessantes. Um grupo de discussão cuja a idéia inicial era só conversar com as mães, saber porque estava aquela confusão na escola - é uma época de criação dos Cieps. Mães, professoras, funcionárias de escola começam a discussão racial em Jacarepaguá. Coincide que o Rio de Janeiro estava organizando o Primeiro Encontro Estadual de Mulheres Negras. Essa vai ser a maior delegação dentro do encontro. A partir daí, começa a militância dentro do movimento de mulheres negras organizadas. A organização política das mulheres com as características de hoje surge em Guaranhuns, em Pernambuco. Vem com a idéia de interferir mais diretamente, de fazer com que as mulheres negras líderes se conheçam, tenham sua própria organização, seus próprios encontros, espaços. Guaranhuns é que dá essa percepção.
Eu sempre gosto de dizer que hoje já tem instalado dentro do movimento negro um pouco da questão de gênero e dentro do feminista um pouco da questão racial, mas isso não foi sem dor para nenhum dos dois lados. Eu vivi bem esses dois lados, foi bastante difícil, eu acredito que ainda é bastante difícil essa incorporação.
O Primeiro Encontro Nacional de Mulheres Negras (ENEM) acontece em Valença, 1988. Foi um encontro muito bonito. Apesar das dificuldades, foi um encontro que reuniu 500 mulheres, 19 estados, se não me engano. Foi um encontro de grande representatividade. Nesse momento a fala da mulher negra não estava pronta. A partir desse Encontro, criou-se a Comissão Nacional de Mulheres Negras. No Rio de Janeiro foram eleitas eu, Maria Lucia de Carvalho e Sandra Helena Bello.
Durante o processo organizativo do II ENEM, levamos duas companhas básicas: 1) contra esterilização em massa de mulheres negras e 2) não matem nossas crianças.
"Não matem nossas crianças" era uma campanha que todo mundo já tinha mais ou menos conhecimento. Ao contrário, o quadro de esterilização de mulheres negras no Brasil não era muito divulgado. Esse era um projeto do Programa de Mulheres do CEAP. Ele foi difundido para o Brasil através dessa Comissão Nacional de Mulheres Negras. Se ampliou muito o debate contra a esterilização em massa das mulheres negras. Eu lamento que essa história tenha se perdido e assim fica parecendo que foi resolvida a questão. Fizemos reuniões no Brasil inteiro e fomos abrindo o leque de discussões.
O II ENEM, em Salvador, 1991, já há um salto. Ai você já tem a fala específica de mulheres negras com imensa reflexão. Aboliu-se a idéia de representatividade e ficou estabelecido que todas mulheres negras que quisessem participar do encontro poderiam fazê-lo. As mulheres negras começam a pesquisar, trabalhar, se preparar para estar no Encontro com uma fala de mulheres negras! Nesse encontro tivemos alguns problemas políticos na própria cidade, em Salvador. O pessoal rachou. O Encontro saiu com muitos problemas Conseguimos garantir a continuidade da Comissão Nacional, a periodicidade do Encontro, algumas bandeiras de luta e que o próximo encontro seria no Distrito Federal.

MN - Atualmente você é uma das coordenadoras do Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher (CEDOICOM). Quais são seus objetivos?

Neusa - Nosso objetivo ao criar o CEDOICOM era buscar o saber produzido, tão distante da maioria das mulheres negras, e devolvê-lo às mulheres negras utilizando linguagens mais adequadas, através de cassetes, cartilhas, seminários, cursos, palestras etc.
Temos também outros projetos: "Saúde de Mulher", onde a gente trabalha principalmente com as doenças sexualmente transmissíveis e Aids; "Capacitação Profissional", onde as mulheres aprendem eletricidade, elas são capazes de fazer toda a instalação elétrica de um prédio, consertos de eletrodomésticos, manutenção hidráulica e agora nós acrescentamos dois módulos, de chaveiro e de telefonia. Esse projeto é destinado à mulheres desempregadas, subempregadas, egressas do sistema penal e meninas em situação de risco. Temos um projeto dentro do sistema penal. Tivemos problemas porque esse último governo era extremamente fechado e a gente não conseguiu trabalhar com mulheres na cadeia. Agora, com esse novo governo, esperamos tocar esse projeto ainda esse ano. A gente agora vai tentar colocar esses cursos dentro do sistema penitenciário. Temos também um projeto de assessoria a parlamentares e a outras ongs. P:or exemplo, a lei 2.475, de 1996, que proíbe a discriminação de gays, lésbicas e travestis em estabelecimentos públicos e comercias, foi uma iniciativa nossa em conjunto com a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ. Estamos também trabalhando junto com o SEPE.

 

MN - Qual é a ligação do CEDOICOM com o Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro?

Neusa - Em 1995, a gente funda o COLERJ (Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro). Coisa de Mulher (CEDOICOM) foi fundada em 1994. Em princípio, nós achávamos que os dois tinham que andar separados, o Coletivo era uma coisa e o Coisa de Mulher outra. Depois, numa assembléia, vimos que não era bem assim, até porque era eu e Elisabeth Calvet que dirigíamos os dois. As mulheres do Coletivo de Lésbicas pediram para ficar junto ao CEDOICOM como um programa até o ano 2000, ou até que se decida o contrário. O COLERJ tem um corpo consultivo, um conselho deliberativo totalmente autônomo.
O Coletivo de Lésbica está começando a se estruturar aqui no Rio de Janeiro. As mulheres lésbicas ou estavam presas aos movimentos sociais, mas caladas sobre sua sexualidade ou estavam dentro do movimento feminista falando um pouquinho mais. Nos outros movimentos elas estavam sempre de bocas fechadas.

MN - Mesmo dentro do Movimento de Mulheres Negras?

Neusa - Mesmo lá! O MMN dá algumas cutucadas. No I Encontro já tivemos uma reunião, que algumas olhavam meio estranhas, o Segundo já foi mais aberto, mas de uma forma geral é um assunto que poucos grupos no Brasil levam. Eu sei do CRIOLA, que está levando a discussão enquanto lésbicas negras mas eu não sei de outros grupos que batalhe nessa questão, embora um bom número de dirigentes de ONGs de mulheres sejam lésbicas. Mesmo quanto as lésbicas estão junto aos homens nos movimentos mistos de gays e de lésbicas também encontram dificuldades. Os homens é que sabem de tudo, os homens é que levam tudo, o dinheiro está na conta deles. Se tem uma reunião lá no Canadá, o homem vai, mas se tem uma reunião ali em Nova Iguaçu, a mulher não tem dinheiro, não tem nada. Os gays não deixam de ser homens!

MN - Como é que vocês conseguiram trazer o V Encontro de Lésbicas da América Latina e do Caribe para o Rio de Janeiro?

Neusa - Em 1996, nós fizemos, com muito sucesso, o I Seminário Nacional de Lésbicas. Até aqui não havia tido nenhum encontro nacional de lésbicas. Foi de 29 de agosto a 1 de setembro. Foi um sucesso estrondoso. Foi tão grande que nesse encontro foi tirado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica que é o dia 29 de agosto. O COLERJ é dirigido por negras, a prioridade é as mulheres negras, a discussão racial é forte, embora junte outros segmentos de mulheres. Fazemos oficinas, discussões, vídeos, grupos de auto-ajuda.
Voltando a sua pergunta, como o I Seminário foi um grande sucesso e também com a velha idéia de fortalecer os outros estados, o II Seminário foi em Salvador, o III em Minas, esse trabalho ganhou corpo, cresceu. As mulheres que estavam organizando os encontros internacionais estavam sem lugar para fazer o V Encontro de Lésbicas Feministas da América Latina e do Caribe. Em princípio esse encontro deveria ser na República Dominicana, mas a situação de lésbicas é bastante complicada na América Latina como um todo. Então qual seria o país onde poderíamos colocar esse encontro de uma forma mais aberta? O Brasil surgiu como alternativa. Nós já tínhamos essa história de encontro de mulheres negras, de encontros de lésbicas, de pioneirismo. Perguntaram se nós aceitaríamos e loucamente aceitamos. loucamente porque na época não tínhamos estrutura nenhuma, nem computador, nem telefone. E a história está ai. O Encontro reuniu cerca de 330 mulheres.

MN - E sobre a moção que vocês ganharam?
Neusa - Ganhamos três moções. A Câmara de Vereadores dá moções em função de trabalhos relevantes que você tenha prestado na área social. Temos uma moção por serviços prestados na área deSaúde, HIV e AIDs. Vamos fazer um Seminário agora para formação de mulheres que vão trabalhar com AIDs, Feminização e Pobreza no interior do Estado, conseqüentemente, vamos falar para mulheres negras. A outra moção é de Cidadania e Direitos Humanos. A terceira moção, Negras Guerreiras, foi oferecida pela Câmara especificamente para mim. Foi no dia 08 de maio. Essas moções são uma iniciativa da Vereadora Jurema Batista e têm o objetivo de ajudar a incentivar e contribuir para a auto-estima das mulheres negras.

MN - O que você sentiu as receber essa última moção?
Neusa - Acho que dá mais responsabilidade. Na verdade, é tipo assim: "a peteca não pode cair nunca". É um reconhecimento, mas que aumenta minha responsabilidade e compromisso. Eu estou com 54 anos e às vezes penso em parar, dá uma descansada, mas é impossível. É claro que também te incentiva mais, acaricia o ego e dá uma animada legal.

MN - Para finalizar, utilizando todos os seus anos de praia, qual a avaliação que você faz sobre o movimento de mulheres negras até aqui?
Neusa - Acho que caminhou, mas também demos alguns passos para atrás. Eu não acho que é só o movimento de mulher negra, mas os movimentos sociais como um todo. Por vários motivos, temos alguns entraves e algumas armadilhas. A gente discute muito no campo das idéias, eu costumo dizer que a gente discute muito do pescoço para cima, mas do pescoço para baixo... câncer de colo uterino, câncer mamário, os miomas, as prisões, a discriminação policial... A gente tem uma dificuldade enorme de caracterizar esses crimes policiais como crimes raciais. Isso não é louco? Então, eu acho que falta uma ação. Não estamos discutindo gente, mas as idéias. A gente tem que brigar para ter nosso canal de comunicação próprio, o nosso horário nobre. São tipos de coisas que a gente tinha que fazer olhando para a gente, para o nosso corpo, a nossa saúde, para nossa auto-estima. O nosso trabalho hoje é pequeno, porém super-respeitado.

 

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